todo o céu concentrado no reflexo de um balde d’água

e nele eu mergulho o pano de espremer sobre seus cabelos
e aparo com tesoura cega os centímetros mortos de dias tão felizes

à direita um bezerro morre
à esquerda o Jatobá rebrota

tudo sobra sobre o chão gramado
que devolve banha como sabão & espuma

para a água tudo volta:
a mão, o pano, a lâmina [tão íntima da virilha e
que agora cumpre seu ofício sobre o rosto
marcado pelo infinito azul-pesado do céu]

atrás está tudo
à frente o medo laranja no horizonte
e esplende em nossa silueta atlântica
de nuca fresca e pele lisa e seca
como o avesso de um balde

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disfunções programadas de amarelinha

quando vejo seu rosto, azul,
lembro de quando era criança
& brincava de desmaiar
no ginásio da escola

cabeça contra parede
polegar sobre jugular
prende o ar e solta
até a paisagem granular crianças
no autoenforcamento lúdico das horas
na falta de contorno dos corpos infantis
na experiência-limite
do nada

quando vejo seu corpo, azul,
lembro de quando era criança
& brincava de desmaiar
no banheiro de casa

e do quão irresistível
é a festa da destruição.

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meu reino por um pesadelo novo

escorria para o fundo do rio
até não mais sentir as veias;

era lançada para fora do carro
em alta velocidade
até perder as veias para o asfalto;

esperava, pacientemente, de quatro,
os chutes de meu avô
[pai de meu pai]
nas costelas
até o camuflar do corpo
na calçada;

no escuro do quarto
tudo tem
contornos de abismo

mas por um instante lembrar
a conta-gotas
e com os olhos desbotados
os fragmentos do dia,
e ir compondo o mosaico dos tempos
no descolar das pálpebras,
e ir lembrando que nada
é mais dilacerante
do que a própria vida
ou do que a vida
sob a luz coada pelas copas
do jardim.

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quer dizer

quer dizer from cecilia cavalieri on Vimeo.

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gambetta sem rosto

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espuma

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Tudo isso foi um sonho que tive essa semana

sobre a cama, ele continuava:

“… O que acontece é que o homem quando goza, quando ejacula, consegue ver e pegar o seu gozo; ele sabe que ali está o seu espermatozóide, ele consegue, de certa forma, vê-lo e tocá-lo. Isso é a produção de um instante, a materialização desse instante. Já a mulher, quando goza, não; ela não consegue ver o que goza para além de um suposto fluido que funciona como um tipo de representação do que ela goza, embora saiba como e porque goze, tanto quanto o homem, naquele lugar. Essa diferença é basicamente o que funda a questão do sacrifício feminino que atravessa os tempos. A facilidade de a mulher perder-se no desejo do outro é porque o homem conhece o produto de seu gozo, mas ela só conhece _ou só consegue ver_ o produto do gozo do outro.”

e até faz sentido.

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