ninho

quando nos tornamos árvore
no jardim de hilda
entendi o amor dos bonobos
meu útero awareté
e tudo aquilo que deixamos de tocar
quando colonizamos as estrelas:
o corpo de criança
o canto fluido do rio
os dedos áridos nos últimos galhos da figueira
a região mineral nua
aquilo que tem olhos
e está vivo
sob os nossos pés
_algo sem nome que não perdemos
porque sequer fomos capazes de ganhar

depois de tornar-me árvore
entendi que toda árvore é ninho
e que quando inventamos o tempo
para controlar aquilo que nos rege a vida
esquecemos de escutar o tempo
de respiração da pedra
esquecemos de cuidar da escrita dos gravetos sobre a pele
esquecemos que tem mais céu no chão
do que no próprio céu

e então que o mundo da árvore desconhece a pornografia
mas conhece que toda encosta precisa de raiz penetrar tudo
de água por tudo
de tudo espalhar sobre tudo
de tudo comungar com tudo
só pra não deixar de existir

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equívoco

um gesto como eternidade
[carta] para L.

ela para juntar os restos

reunir aquilo que resta quando já tudo foi retirado. aquilo que é fragmento, mas que também é inteiro e ocupado por intensidades. juntar estes corpos que são a própria materialidade do desejo em seu fluxo, toda infância atualizada, sem antes nem depois. fragmentos inteiros das contrações de deus sobre o tempo e sobre o corpo. recolher aquilo que se estende como arte e memória do corpo que se estende como arte. dar acolhimento ao corpo sem rosto & sem sujeito, sem fim nem começo, esse sujet-trouvé como uma dobra do objet-trouvé surrealista: ready mades carnais que se esbarram e encontram na noção de perda as ações que os definem. amontoar os corpos e suas operações residuais, os pedaços que são inteiros em suas deformidades. afirmação da ausência de fim. alçar o corpo que se inscreve no real dos corpos, produto de si próprio que dá sentido à existência. o corpo estendido como escrita, como verso, como unha, como sêmen, como dente, como dor, como olhar. recolher o que parece resto, roubar o nome das coisas e dar a elas o infinito titular de que são feitas. e convocar sua potência autoprodutiva não apenas como uma afirmação estética, mas como uma confirmação erótica, como confirmação da vida. esse corpo, esse resto, essa extensão de corpo, esse fragmento que é inteiro, esse pacote de intensidades sem de nem para onde, essa chance de realidade: o lugar de resistência na vida e na arte. acumular esse natural prolongado na porosa interface entre a arte e a vida. o corpo resto do corpo como seu próprio suporte e reflexo de alguma condição humana e como a experiência da expansão de si. juntar o não estanque.

8 de maio de 2013

04490029

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pír

pír from cecilia cavalieri on Vimeo.

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dê uma chance :)

vândalo de corpostêncil

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sujet-trouvé

sujet-trouvé, 2013. fotografias impressas sobre lista telefônica.

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um dia você vai coincidir consigo mesmo

e reparar que seu corpo
tem dois centros gravitacionais
e quando do umbigo o céu estiver coalhado de estrelas
vão dizer que está errado
que a disposição dos astros é equivocada
que a luz tem um tempo diferente
desse que você percebe
“que a gente pode fazer tudo o que quiser”, você diz
enquanto o beijo metálico
alterna com a temperatura
do abalo sísmico.

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“L’amur is what appears in the form of bizarre signs on the body” {Lacan

“Love, of course, makes signs and is always mutual.
I put forward that idea a long time ago, very gently, by saying that feelings are always mutual. I did so in order to be asked, ‘Then what, then what, of love, of love—is it always mutual? But of course, but of course!’ That is why the unconscious was invented—so that we would realize that man’s desire is the Other’s desire, and that love, while it is a passion that involves ignorance of desire, nevertheless leaves desire its whole import. When we look a bit more closely, we see the ravages wreaked by this.

Jouissancejouissance of the Other’s body—remains a question, because the answer it may constitute is not necessary. We can take this further still: it is not a sufficient answer either, because love demands love. It never ceases demanding it. It demands it. . . encore. Encore is the proper name of the gap in the Other from which the demand for love stems.
Where then does what is able, in a way that is neither necessary nor sufficient, to answer with jouissance of the Other’s body stem from?

It’s not love. It is what last year, inspired in a sense by the chapel at Sainte-Anne Hospital that got on my nerves, I let myself go so far as to call l’amur.

L’amur is what appears in the form of bizarre signs on the body. They are the sexual characteristics that come from beyond, from that place we believed we could eye under the microscope in the form of the germ cell—regarding which I would point out that we can’t say that it’s life since it also bears death, the death of the body, by repeating it. That is where the encorps comes from. It is thus false to say that there is a separation of the soma from the germ because, since it harbors this germ, the body bears its traces. There are traces on l’amur.

But they are only traces. The body’s being is of course sexed, but it is secondary, as they say. And as experience shows, the body’s jouissance, insofar as that body symbolizes the Other, does not depend on those traces.

That can be gathered from the simplest consideration of things. Then what is involved in love? Is love—as psychoanalysis claims with an audacity that is all the more incredible as all of its experience runs counter to that very notion, and as it demonstrates the contrary—is love about making One? Is Eros a tension toward the One?

People have been talking about nothing but the One for a long time. There’s such a thing as One. I based my discourse last year on that statement, certainly not in order to contribute to this earliest of confusions, for desire merely leads us to aim at the gap where it can be demonstrated that the One is based only on the essence of the signifier. I investigated Frege at the beginning, of last year’s seminar, in the attempt to demonstrate the gap there is between this One and something that is related to being and, behind being, to jouissance. I can tell you a little tale, that of a parakeet that was in love with Picasso. How could one tell? From the way the parakeet nibbled the collar of his shirt and the flaps of his jacket. Indeed, the parakeet was in love with what is essential to man, namely, his attire. The parakeet was like Descartes, to whom men were merely clothes . . . walking around. Clothes promise debauchery when one takes them off. But this is only a myth, a myth that converges with the bed I mentioned earlier. To enjoy a body when there are no more clothes leaves intact the question of what makes the One, that is, the question of identification. The parakeet identified with Picasso clothed.

The same goes for everything involving love. The habit loves the monk, as they are but one thereby. In other words, what lies under the habit, what we call the body, is perhaps but the remainder I call objet a.

What holds the image together is a remainder. Analysis demonstrates that love, in its essence, is narcissistic, and reveals that the substance of what is supposedly object-like—what a bunch of bull—is in fact that which constitutes a remainder in desire, namely, its cause, and sustains desire through its non-satisfaction, and even its impossibility. Love is impotent, though mutual, because it is not aware that it is but the desire to be One, which leads us to the impossibility of establishing the relationship between ‘them-two.’ The relationship between them-two what?—them-two sexes.”

Jacques Lacan {Encore – November 21 , 1972.

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